Tente entender sem ler

Sem um skate ou companhia, longe de casa a desolação é eminente. Principalmente numa típica manhã pacata, começo de final de semana, nessa cidade pequena. Vou pelo canto, ao lado do meio-fio e na rua não sou capaz de enxergar nenhuma pedra “chutável” para me entreter: apenas algumas folhas, que são facilmente levadas pelo vento semi-gelado que torna esse sentimento cada vez mais perseptível e cada vez menos eficaz, qualquer tentantiva de evitá-lo. Vou cumprimentando quem não hesita em me encarar, na maioria das vezes homens e aparentemente aposentados, assim deduzo pelos grizalhos e bengalas, que carregam. Vejo um grupo de crianças correndo, gritando e vezes até caindo; mas todas tem algo em comum, são “brancas” e usam todas as peças de roupa necessárias para que não passem frio e dentre elas, há um menino feliz correndo descalço e meio sujo. Nesse momento, instantâneamente, meu olhar de “skatista” voltou e os meus passos que antes apenas eram largos, agora se tornam firmes também. Como alguém aparentemente tão frágil pode conviver com tanta facilidade junto a essa segregação de peito aberto e assim, sorrindo? Crianças não sabem finjir que estão felizes. Digo olhar de “skatista” porque este, não somente a mim, serve de escudo. Olhar firme e de concentração, que sempre falha na tarefa de eliminar o medo, mas que transborda vontade de viver, vontade de ultrapassar alguns limites conhecidos, que nos mostra outro obstáculo a superar e sim, os obstáculos são coisas boas. Vou conquistando o meu espaço, pouco a pouco e sei que não estou sozinho, não mais, pelo menos não depois de ver aquele menino lá, sorrindo e tentando ser feliz.

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